Marte: Ecos de uma Guerra Esquecida
O ano era
2147. A Expedição Ares VI perfurava a planície de Elysium Planitia, uma
vastidão avermelhada que parecia guardar seus segredos com uma indiferença
geológica. Não procurávamos ouro ou água; buscávamos tempo. O Dr. Elias Vance, geólogo-chefe, estava convencido de que
as anomalias sísmicas registradas na área não eram meros depósitos de gelo, mas
algo mais... estrutural.
A broca,
apelidada de "O Escavador",
penetrou a uma profundidade recorde de 3,2 quilômetros antes da telemetria
enlouquecer. Em vez da rocha basáltica esperada, os sensores retornaram a
assinatura de um material denso e quimicamente inerte: concreto vítreo.
Três
semanas depois, a equipe de exploração desceu ao abismo recém-perfurado. Quando
os feixes de seus capacetes iluminaram o espaço, o silêncio do vácuo marciano
foi substituído pelo silêncio opressor de um templo abandonado. Estávamos em uma
grande avenida subterrânea de uma cidade cujo nome e povo haviam sido varridos
pela poeira do tempo.
As
estruturas eram ciclópicas, formadas por blocos monolíticos que desafiavam a
compreensão terrestre de engenharia sísmica. Eram ruínas marcianas datadas por espectroscopia em impressionantes seis milhões de anos.
No
coração da necrópole tecnológica, a arqueóloga Dra. Lena Petrova encontrou a Câmara dos Registros. Selada
magneticamente e isolada termicamente, parecia ter sido projetada para
sobreviver ao próprio planeta. Dentro, não havia placas de metal ou
pergaminhos, mas cristais de memória cintilantes que pulsavam com uma energia
residual tênue.
Quando os
cristais foram conectados ao tradutor universal da expedição, a história
começou a se desenrolar, não como um conto, mas como um grito desesperado através do abismo temporal.
A Crônica de Xylos: O Grande Êxodo
O planeta
que chamávamos Marte era, em sua juventude, Aerhion—um mundo de oceanos rasos e florestas de sílica. Os
habitantes, os Aerhi, eram uma
civilização que dominava a fusão estelar e moldava o tempo/espaço para viagens
interplanetárias.
O
primeiro conjunto de documentos, gravado na voz gutural de um historiador
chamado Xylos, falava de uma era de ouro, seguida por uma cisão.
“Eles vieram dos Cânions do Leste, buscando o poder
do Núcleo. Chamavam-se os Daros, e sua ambição era reescrever a lei fundamental
da entropia. A Grande Guerra não foi por território, nem por recursos. Foi uma
guerra contra a própria realidade.”
As
crônicas descrevem uma luta apocalíptica que durou séculos. Armas
termonucleares primitivas deram lugar a Conversores
de Vácuo e Bombas de
Singularidade. A atmosfera de Aerhion foi destruída, os oceanos
evaporados por fogos que não precisavam de oxigênio. O golpe final, o evento
cataclísmico que forçou os Aerhi para o subsolo, foi o uso da "Lágrima de Exos"—uma arma
que acelerava a degeneração molecular.
“Vimos nossas cidades virarem pó em segundos.
Nossos corpos, nosso DNA... a própria estrutura da vida estava sendo desfeita.
Aerhion estava morrendo. Não por nós, mas por tudo.”
O texto
final, mais do que uma crônica, era um Testamento.
“Restam-nos 10.000, não mais. O solo treme, o Sol
queima sem misericórdia, e a Lágrima de Exos criou um campo de degeneração
irreversível. Nós construímos a Frota do Gênesis. Não há tempo para a
Terraplenagem de um novo mundo. Precisamos de um planeta novo e intacto para recomeçar. Nossas
observações astronômicas detectaram que o terceiro planeta, um mundo jovem, uma
joia azul-e-branca, fervilhando com vida primitiva é um futuro promissor para o
recomeço da nossa civilização. O planeta que os Aerhi chamaram de Têrrae.
“Nós não vamos colonizar. Nós vamos semear. Nossas naves se disfarçarão de
asteroides, nossa tecnologia será enterrada, e nós nos misturaremos.
Reduziremos nossos corpos, nossos dons, nossa memória coletiva a um traço
genético latente. Seremos como as sementes que esperam a chuva. Nosso povo
esquecerá, mas o impulso de
construir, de criar, de amar e, o que é mais assustador -- de cometer os mesmos
erros... isso estará em seu sangue.”
O texto
se encerrava com um único e enigmático comando:
“Lembrem-se,
filhos de Têrrae que encontrarem esses registros. Olhem para o céu vermelho.
Vocês não são o fim. Vocês são o recomeço. E a guerra está esquecida, mas o DNA
da ambição persiste.”
De volta
à superfície, a Dra. Petrova olhou para o céu cor de sangue de Marte. A equipe
terrestre não estava apenas em solo marciano; eles estavam nas ruínas de sua
própria pré-história. Eles eram os filhos
dos Aerhi, a humanidade estava descobrindo que não era originária da
Terra, éramos filhos de Marte. Seis milhões de anos de evolução haviam
transformado os sobreviventes de uma catástrofe de proporções cósmicas em Homo sapiens, e agora, ironicamente,
haviam retornado ao berço de seus ancestrais, apenas para descobrir que o
instinto de guerra que havia destruído Aerhion ainda os assombrava na Terra.
Ares VI
não era uma expedição de exploração. Era uma reunião de família.
Éramos os filhos retornando ao lar de nossos pais, o
mistério de como o ser humano surgiu e evoluiu finalmente foi solucionado.










