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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Onda de calor: A arquitetura que combate o calor em prédios sem o uso de ar-condicionado

BBC Future


Você sabia que há maneiras de resfriar os edifícios sem recorrer ao ar-condicionado?
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Você sabia que há maneiras de resfriar os edifícios sem recorrer ao ar-condicionado?

À primeira vista, pode parecer com as casas dos Hobbits, famosos personagens criados pelo escritor britânico J. R. R. Tolkien, sobretudo pelas portas perfeitamente circulares que se abrem para as montanhas.

Mas as portas são feitas de vidro e, dentro delas, não há a decoração aconchegante da “toca” dos Hobbits – você encontra apenas uma série de braços e alavancas mecânicas de aço, que mantêm algumas portas entreabertas.

Essas colinas fazem parte da cobertura do prédio da Academia de Ciências da Califórnia, em São Francisco, nos EUA. E o telhado verde ondulado é um exemplo de uma série de recursos de engenharia e design que fazem deste edifício um dos maiores espaços passivamente ventilados do país.

Isso quer dizer que, mesmo no auge do verão, a maior parte deste prédio conta com a manipulação inteligente destes elementos para se manter fresco, quase sem nenhuma necessidade de ar-condicionado.

Arquitetos, engenheiros e designers de todo o mundo estão repensando os edifícios na tentativa de encontrar soluções para mantê-los frescos sem ar-condicionado – e telhados como esse são uma alternativa.

Este é um desafio cada vez mais urgente. O verão do ano passado foi mais uma vez escaldante, com ondas de calor registradas na Austrália, no sul da Ásia, na América do Norte e na Europa.

Para enfrentar as ondas de calor, mais frequentes por causa das mudanças climáticas, o número de unidades de ar-condicionado deve triplicar no mundo todo até 2050.

Além de consumir uma grande quantidade de eletricidade, esses aparelhos contêm fluidos refrigerantes (que passam do estado físico para o gasoso) que são potentes gases de efeito estufa. Na verdade, esses fluidos são a fonte de emissão de gases de efeito estufa que mais cresce em todos os países.

O design intrigante da Academia de Ciências da Califórnia foi desenvolvido para promover a ventilação do edifício
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O design intrigante da Academia de Ciências da Califórnia foi desenvolvido para promover a ventilação do edifício

Mas o que não falta são alternativas – de projetos de arquitetura testados há 7 mil anos à tecnologia de ponta usada na construção da Academia de Ciências da Califórnia – para criar prédios que permaneçam frescos sem praticamente nenhuma necessidade de energia.

Na Academia de Ciências da Califórnia, as redomas gramadas do telhado desviam o fluxo natural de ar para dentro do edifício. À medida que o vento sopra, um dos lados da colina está sob pressão negativa, o que ajuda a sugar o ar para o interior do prédio, por meio de janelas controladas automaticamente do telhado.

O fato de o telhado estar coberto de vegetação também ajuda a diminuir a temperatura no espaço abaixo dele, além de fornecer um habitat para diferentes espécies de plantas e animais.

"Começamos pensando em quão longe poderíamos ir para projetar o prédio, supondo que não teríamos ar-condicionado", diz Alisdair McGregor, líder global de engenharia mecânica da Arup, que participou do projeto de construção do prédio.

Ele acrescenta, no entanto, que é raro conseguir controlar totalmente o clima dentro de um edifício por meio desta abordagem.

Pode haver restrições impostas por uma rodovia barulhenta que passa ao lado, por exemplo, tornando inviável a abertura de janelas. Pode ser também que o prédio tenha muitos equipamentos que esquentam ou residentes com necessidades específicas, como no caso de um hospital.

Mas pelo menos isso significa que o ar-condicionado, assim como seus custos e emissões, são reduzidos ao mínimo.

O ar-condicionado convencional libera gases de efeito estufa na atmosfera, contribuindo para o aquecimento global
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O ar-condicionado convencional libera gases de efeito estufa na atmosfera, contribuindo para o aquecimento global

A Academia de Ciências da Califórnia é a expressão máxima do design sustentável. No entanto, também é um projeto de quase meio bilhão de dólares, assinado por alguns dos melhores engenheiros e arquitetos em desenvolvimento sustentável.

E quanto aos edifícios mais banais em que passamos a maior parte do tempo – será que técnicas sustentáveis de resfriamento natural e passivo também podem deixá-los à prova das ondas de calor?

Água

Uma das formas mais simples de resfriamento passivo utiliza a mudança de temperatura no ar quando a água evapora. A água precisa de energia para passar do estado líquido para gasoso – e retira essa energia do calor do ambiente.

"O resfriamento evaporativo é um fenômeno natural", diz a engenheira Ana Tejero González, da Universidade Valladolid, no norte da Espanha.

"Podemos ver muitos exemplos na natureza onde isso acontece."

Ele pode resfriar tanto uma superfície, quanto uma massa de ar, assim como a pele quando você transpira ou a língua de um cachorro quando ele está ofegante.

A moringa ajuda no resfriamento evaporativo, permitindo que a água penetre por meio da superfície porosa do barro
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A moringa ajuda no resfriamento evaporativo, permitindo que a água penetre por meio da superfície porosa do barro

Na região em que González mora, na Espanha, a moringa utiliza o mesmo princípio.

Feita de barro, ela é usada pelos trabalhadores rurais para transportar água potável ou vinho para os campos. Uma pequena quantidade da bebida evapora por meio da superfície porosa do barro, mantendo o líquido fresco mesmo sob o calor do sol.

Na arquitetura, o uso do resfriamento evaporativo remonta ao Egito antigo e aos romanos.

Mas alguns dos exemplos mais elaborados são da arquitetura árabe, sobretudo de uma estrutura chamada mashrabiya. A mashrabiya é uma treliça de madeira ornamentada, esculpida com desenhos, encontrada na parte interna ou externa de um edifício.

Além de proporcionar sombra, a mashrabiya serve no verão para armazenar potes de barro – como moringas – cheios de água. Isso ajuda a esfriar o ambiente, uma vez que a ventilação passa pelo design vazado da mashrabiya e pela superfície porosa dos portes.

Mas existem maneiras ainda mais simples de aproveitar o resfriamento evaporativo dentro de um prédio ou espaço externo. Um corpo de água em um pátio – seja um lago, uma fonte ou pequenos canais – desempenha a mesma função.

E, no interior das construções, colocar um pote de barro com água perto da janela ou de um local em que haja corrente de ar também pode ajudar a resfriar o ambiente.

Terra

Se as regiões temperadas do hemisfério norte querem se preparar para enfrentar o calor extremo, há muito a aprender com as construções tanto antigas quanto modernas do hemisfério sul, diz Manit Rastogi, sócio fundador do escritório de arquitetura Morphogenesis, com sede na Índia.

"Esta parte do mundo sempre foi quente", explica.

Os sistemas de refrigeração passiva são uma necessidade nessa região há milhares de anos.

"A maior parte da arquitetura que tradicionalmente fazemos aqui são exemplos fenomenais de como resfriar o ambiente sem meios mecânicos", diz Rastogi.

Mesmo em climas quentes e áridos, as temperaturas mais baixas podem estar mais perto do que você imagina.

Em Jaipur, capital do Estado de Rajasthan, no norte da Índia, as temperaturas diurnas atingem regularmente mais de 40°C no verão. Mas apenas a alguns metros abaixo do solo, a temperatura permanece mais branda, a 25°C, mesmo com o calor mais intenso do verão.

Na cidade de Jaipur, na Índia, as temperaturas chegam a mais de 40°C no verão
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Na cidade de Jaipur, na Índia, as temperaturas chegam a mais de 40°C no verão

A solução é cavar, diz Rastogi, que projetou a Pearl Academy of Fashion, em Jaipur, usando esse princípio. Ele e os colegas fizeram um poço indiano tradicional, conhecido como baoli, dentro de um dos pátios internos da academia.

Essas estruturas escavadas no solo possuem uma série de degraus – e são desenhadas para coletar tanto a água da chuva, quanto a água residual tratada do edifício. O reservatório de água, resfriado pelas temperaturas subterrâneas, absorve uma quantidade substancial de calor do pátio, mantendo o ar fresco.

"Cavar a terra é muito, muito eficaz", afirma Rastogi.

Embora seja uma solução atraente, não é necessário cavar um poço enorme em sua propriedade para se beneficiar do mesmo fenômeno.

Os sistemas comerciais de aquecimento e refrigeração geotérmicos também fazem uso da temperatura mais ou menos estável do solo ao longo do ano bombeando água por meio de uma tubulação que passa por baixo da terra.

No verão, a temperatura da água resfria dentro do solo, e é bombeada de volta, sendo distribuída por dutos que vão ajudar a refrescar a casa. No inverno, o mesmo sistema pode ser usado para esquentar a residência.

Embora ainda seja pouco usado para aquecimento, o sistema geotérmico está se tornando cada vez mais popular para refrigeração, principalmente em cidades do norte da China no verão.

Além do baoli, a Pearl Academy of Fashion, em Jaipur, usa outros truques para manter a temperatura amena.

A começar pela simples forma retangular do prédio, que pode não parecer muito elegante, mas oferece a vantagem de maximizar o espaço interno em relação à área de superfície externa, uma vez que cada metro quadrado exposto ao sol absorve calor.

O edifício é coberto por um jali, tela de pedra perfurada, que fica a cerca de 1,2 metros das paredes externas, o que ajuda fazer sombra no edifício e atenuar a temperatura.

"Muitas dessas estratégias se referem a estar em contato com a natureza e entender como ela funciona", diz Rastogi

O resultado é que a temperatura no interior da academia é razoavelmente morna, em torno de 29°C, mesmo nos meses mais quentes, quando as temperaturas externas são frequentemente superiores a 40°C.

Isso permite que o ar-condicionado seja usado de maneira moderada quando é necessário.

Vento

Yazd, no Irã, é conhecida como a "cidade das torres de vento".

As torres de vento são um elemento tradicional na arquitetura persa e funcionam como uma espécie de ar-condicionado natural. Elas possuem diversas aberturas em forma de arco e são erguidas no topo de edifícios de telhado plano, de acordo com a direção do vento. Há séculos, capturam o vento que sopra sobre os telhados e canalizam para o interior das moradias.

Sua estrutura arquitetônica também ajuda a estimular a circulação de ar, mesmo quando não há uma brisa forte soprando. Às vezes, o ar flui sobre uma bacia ou tanque com água, para refrescar ainda mais o ambiente.

As torres de vento de Yazd estão entre as mais variadas e criativas do Oriente Médio, de acordo com uma pesquisa realizada pela professora de arquitetura Mahnaz Mahmoudi Zarandi, da Qazvin Islamic Azad University, em Teerã.

Uma análise das torres de vento da cidade mostrou que os modelos mais eficazes são capazes de reduzir de 40°C para 29,3°C a temperatura do ar em ambientes fechados.

No caso de prédios que não têm a sorte de ter uma torre de vento acoplada, há outras alternativas, diz McGregor, da Arup. Por exemplo, manter as janelas abertas em diferentes lados de um edifício, em alturas variadas, pode ajudar a canalizar o ar para dentro.

"Às vezes, o efeito pode ser um vendaval de ventos uivantes", acrescenta.

“Por exemplo, um átrio alto com uma abertura na parte superior e uma porta embaixo. Com várias aberturas, você pode controlar o fluxo de ar pelo edifício.”

Selva de concreto

Por mais inteligente que o design de um edifício seja, ele só consegue diminuir o termostato até certo ponto. Mas entender como os prédios interagem com o restante da paisagem urbana pode ajudar a reduzir ainda mais a temperatura.

O arranha-céu espelhado de Londres conhecido como "walkie-talkie" é uma lição de como não fazer isso. O prédio tem uma face côncava gigante. Embora possa parecer sofisticado, há uma razão para que edifícios com reentrâncias não sejam muito comuns.

Antes da conclusão do edifício, descobriu-se que a vasta superfície côncava e brilhante agia como uma lupa, concentrando os raios do sol em uma pequena área. Mais precisamente, em um pequeno trecho da calçada – em frente a um salão de beleza e um restaurante vietnamita.

O resultado foi uma temperatura tão alta que derreteu pinturas, entortou peças de carro, estilhaçou azulejos e botou fogo no capacho de uma loja.

O problema foi resolvido graças à instalação na última hora de um brise soleil – uma espécie de guarda-sol gigante de lâminas de alumínio. Mas isso mostra como uma mudança no design pode alterar profundamente a temperatura da paisagem urbana.

A vegetação ajuda a manter cidades como Chengdu, na China, frescas durante o verão
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A vegetação ajuda a manter cidades como Chengdu, na China, frescas durante o verão

Mesmo que não haja arranha-céus fritando as calçadas, existe o fenômeno urbano da ilha de calor – em que o concreto absorve o calor do Sol e o irradia de volta para os pedestres.

Podemos pensar no efeito das ilhas de calor como um mal necessário nas grandes cidades no verão. Mas é possível adaptar os espaços urbanos a fim de reduzir o mesmo.

Uma das maneiras mais eficazes é por meio da vegetação. Todo mundo sabe disso intuitivamente – é a diferença entre o frescor das alamedas arborizadas de cidades como Palma, na ilha de Maiorca, e o calor das calçadas descampadas de Nova York.

Em Medellín, na Colômbia, as autoridades implantaram 30 "corredores verdes" em partes outrora cinzentas da cidade, usando as margens de 18 estradas e 12 vias fluviais. Esses espaços cobertos de vegetação reduziram as temperaturas em 2°C.

Mas um estudo realizado pela ecologista Monica Turner, da Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, mostrou que uma cobertura de árvores ainda mais ampla pode reduzir a temperatura urbana em até 5°C.

Muitas cidades estão adotando medidas semelhantes. As autoridades municipais de Milão, na Itália, planejam plantar três milhões de árvores na cidade até 2030. Melbourne, na Austrália, também iniciou um programa de plantio de árvores para manter a cidade habitável durante futuras ondas de calor.

E cidades recém-construídas, como Liuzhou, a “cidade florestal” da China, podem ser concebidas com uma ampla cobertura de plantas e árvores desde o início.

Saída estratégica

É claro que, mesmo em um edifício passivamente refrigerado de uma cidade bem projetada, às vezes esses recursos de design não serão suficientes.

Em um hospital repleto de equipamentos que geram calor e pessoas vulneráveis, haverá requisitos de refrigeração que vão além do que os sistemas passivos são capazes de oferecer.

"Neste caso, não nos preocupamos tanto com a energia – precisamos apenas alcançar as condições térmicas adequadas no interior", diz González.

Mas o ponto principal é que o ar-condicionado convencional deve ser o último recurso, não uma muleta.

Talvez o aspecto mais promissor a respeito do resfriamento passivo, acrescenta McGregor, seja o fato de oferecer uma saída do ciclo vicioso que estamos vivendo atualmente com o ar-condicionado.

domingo, 4 de outubro de 2020

Buraco gigante surge na Sibéria e poderá desencadear o retorno de doenças antigas [vídeo]

 Pelo site Engenharia É


Um buraco gigante foi avistado pela primeira vez por uma equipe de TV, de acordo com o The Siberian Times, quando os cientistas foram investigar, eles encontraram pedaços de gelo e rocha lançados a centenas de metros do epicentro.

Não está claro quando o buraco se formou ou se as mudanças climáticas tiveram um papel, mas em 2014, algo estranhamente semelhante também foi visto na península de Yamal, no noroeste da Rússia, após uma série de verões excepcionalmente quentes.

Na verdade, este é pelo menos o 17º tal ‘funil’ descoberto até hoje na região e o maior do tipo nos últimos anos.

Acredita-se que os buracos gigantes resultem do colapso repentino de colinas, ou inchaços da tundra, que se formam quando o derretimento do permafrost causa um acúmulo de metano abaixo da superfície.

Graças à mudança climática antropogênica, o Ártico está passando por um rápido colapso de seu permafrost e, embora o fenômeno do funil seja provavelmente influenciado por essas mudanças, ainda existem poucos estudos investigando como a mudança climática especificamente induz seu colapso.

O metano é 84 vezes mais potente como gás do efeito estufa do que o dióxido de carbono, então a liberação de vastos estoques desse gás poderá dar início a um ciclo vicioso de feedback que tornará a atual crise climática global ainda mais assustadora, vamos dizer assim.

Analisando imagens históricas que remontam à década de 1970, um estudo de 2017 descobriu que os funis siberianos se expandiram nos últimos anos, e isso sugere que o derretimento do permafrost está, pelo menos em parte, causando esses tipos de colapsos e levando à liberação de estoques de metano do Ártico.

No mesmo ano, outro estudo encontrou 7.000 bolsões de gás sob a península de Yamal, bem onde o funil recém-descoberto foi encontrado.

Ainda assim, não sabemos se essas bolsas de gás são novas ou não. O permafrost ocupa cerca de dois terços do território russo em algumas das partes mais remotas e inacessíveis do mundo, e simplesmente não temos olhos suficientes para essas áreas.

“A formação de gelo que precede uma cratera geralmente acontece muito rapidamente, ao longo de um a dois anos, e esse crescimento repentino é difícil de observar, então quase todas as crateras foram descobertas depois que tudo já havia acontecido”, o pesquisador Evgeny Chuvilin, que estuda o derretimento do permafrost no Instituto de Ciência e Tecnologia Skolkovo.

“Temos apenas evidências fragmentadas de moradores locais que dizem que ouviram um barulho ou viram fumaça e chamas. Além disso, uma cratera se transforma em um lago em um ou dois anos, o que é difícil de distinguir dos lagos termokarst comuns no Ártico.”

Além da incrível quantidade de metano que esta região do mundo pode um dia liberar, os cientistas também estão preocupados com o que acontecerá se o derretimento do permafrost desencadear doenças antigas sobre as quais nada sabemos.

Na verdade, isso já pode estar acontecendo. Em 2016, um surto de antraz, que matou um menino de 12 anos, remonta ao degelo do permafrost, que vazou a velha bactéria para a água e o solo da região.

Essa não é a única consequência perigosa. Apenas neste ano, o derretimento do permafrost causou o pior derramamento de combustível na história do Ártico, e os cientistas estão preocupados com a localização de muitos mais tubos e estruturas de combustível, com a península Yamal particularmente em risco.

Mesmo que não libere um vírus ou cause um derramamento de óleo, um abismo que aparece de repente no solo geralmente não é um bom sinal.

Os pesquisadores que investigaram o buraco recém-surgido na península disseram à mídia local que esse buraco em particular é único, embora a equipe não divulgue mais informações sobre ele ainda.

Veja o vídeo no link abaixo.

https://youtu.be/q3fQok8iQ94

Será o fim do plástico? Novo material leva um ano para se decompor

 Pelo site Engenharia É


Um projeto pioneiro quer trocar a produção de plástico a partir de derivados de combustíveis fósseis por plantas. O plano foi idealizado pela companhia de produtos químicos renováveis Avantium tem o apoio de empresas como Coca-Cola, Carlsberg e Danone.

A iniciativa ganha relevância diante do fato de que são produzidas 300 milhões de toneladas de plástico a cada ano no mundo e o descarte desse material contribui para a crise climática e poluição dos oceanos.

O novo material traz semelhança ao plástico e é feito a partir de açucares de milho, trigo e beterraba. Os testes mostram que o produto pode se decompor por completo em um ano em composteira e em alguns anos se deixados em condições externas naturais. Mas o ideal é que seja reciclado. Do ponto de vista da sustentabilidade, esse plástico não usa combustíveis fósseis e, além de poder ser reciclado, degrada bem mais rápido do que o usado hoje quando na natureza.

O plano da empresa é que o plástico à base de planta esteja nas prateleiras de supermercados até 2023. O projeto inicial produzirá 5 mil toneladas do material por ano. A Avantium espera que a produção aumente conforme a demanda por plástico sustentável. Também planeja usar açúcares vegetais provenientes de resíduos biológicos de origem sustentável, para não afetar a cadeia de fornecimento de alimento.

O plástico que usamos hoje permanece muito tempo no ambiente, uma garrafa de água feita de plástico leva 450 anos para se decompor e canudos levam 200 anos.

Brasil precisará aumentar fornecimento de água potável em 1,6% ao ano

Pelo site Engenharia É


OBrasil precisa aumentar o fornecimento de água potável em 4,337 bilhões de metros cúbicos (m³) até 2040. A projeção, a partir da expectativa de crescimento econômico, do aumento da população e do aquecimento global, indica que o crescimento da demanda por água potável nas cidades será de 43,5% até o final da quarta década do século 21 – uma média de incremento de 1,6% ao ano.

O volume é próximo da demanda efetiva de consumo somada nos estados de São Paulo e Minas Gerais em 2017, e equivale ao volume que seria fornecido por 4,4 sistemas do porte do Sistema Cantareira, formado por seis reservatórios que abastecem quase 9 milhões de habitantes da Grande São Paulo.

Os números são do estudo Demanda Futura por Água Tratada nas Cidades Brasileiras – 2019 a 2040, elaborado pelo Instituto Trata Brasil e pela The Nature Conservancy (TNC). O Trata Brasil é uma organização da sociedade civil de interesse público (oscip) formada por empresas da área saneamento básico, e a TNC é uma organização não governamental (ONG) ambiental que tem sede nos Estados Unidos e desenvolve atividades em diversos países, inclusive o Brasil.

A eventual diminuição do desperdício de água tratada nas redes de abastecimento e o uso racional dos recursos hídricos podem ajudar no atendimento da demanda projetada, diz o estudo. O volume de água desperdiçada no ano de 2017 foi calculado em 3,815 bilhões de m³  – 88% do volume que, segundo o estudo, deve ser acrescido até 2040.

A perda de água causa prejuízo de R$ 12 bilhões.

Um indicador do desperdício assinalado no estudo é que a média de consumo de água por habitante no Brasil é de 151,23 litros por pessoa, mais de 41 litros (38%) acima do que estabelece a Organização das Nações Unidas (ONU) como volume necessário para viver confortavelmente (110 litros). O dado sobre a média de consumo inclui o uso residencial e também o gasto de água em diversas atividades econômicas como agricultura (irrigação) e indústria (transformação de produtos).

Para o presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, a demanda por mais água exigirá “altos investimentos em reservação [reservatórios de água], tratamento de esgotos e na redução das perdas, com troca de redes e eficiência na distribuição de água potável.”

O material de divulgação do estudo ainda assinala a necessidade de preservação ambiental. “O fortalecimento da infraestrutura verde traz benefícios ambientais extremamente valiosos, como a preservação de rios, a conservação da biodiversidade e a absorção de carbono, o que ajuda a combater as mudanças climáticas”, diz o documento. 

Enzima híbrida é seis vezes melhor para destruir plástico do que sua decomposição natural

 Pelo site Engenharia É


Alguns micróbios do solo, adeptos de usinas de reciclagem, desenvolveram um gosto peculiar pelo plástico. Alguns anos atrás, enquanto brincavam com um desses organismos altamente adaptados, os cientistas criaram acidentalmente uma enzima mutante, capaz de devorar 20% mais plástico do que sua decomposição natural.

Apenas dois anos depois, a mesma equipe mais uma vez se superou. Combinando uma enzima recém-descoberta com a versão antiga, eles criaram uma nova enzima super mutante que decompõe o PET com eficiência.

O enorme aumento na eficiência pode representar um possível caminho para a reciclagem de plásticos no futuro, embora, no momento, evitar produtos de plástico ainda seja a forma mais eficaz de gerenciar nossa poluição.

Hoje, o lixo plástico feito pelo homem virtualmente invadiu todas as fendas do nosso planeta, e o PET (também conhecido como tereftalato de polietileno) é o termoplástico mais comum de todos, geralmente usado em garrafas de água e roupas.

No mundo natural, leva séculos para esse plástico se decompor totalmente, mas mesmo no curto período de tempo em que esses produtos existem em nosso planeta, alguns micróbios descobriram como mastigá-los em poucos dias.

Em 2016, o primeiro desses organismos foi descoberto em uma usina de reciclagem no Japão – o Ideonella sakaiensis. Ao longo dos anos, pesquisas mostraram que ele secreta uma enzima degradadora de plástico chamada PETase para quebrar garrafas PET de água.

Agora, descobrimos um segundo e o rotulamos como MHETase. Juntas, as duas enzimas criam a parceria perfeita para a destruição do plástico.

Enquanto a PETase decompõe a superfície dos plásticos, os pesquisadores dizem que a nova enzima retalha as coisas ainda mais, até que tudo o que resta são os blocos de construção básicos, oferecendo a promessa de essencialmente reciclar o plástico por completo.

“Pareceu natural ver se poderíamos usá-los juntos, imitando o que acontece na natureza”, explica o biólogo estrutural John McGeehan, que faz parte da pesquisa na Universidade de Portsmouth desde o início.

A simples mistura da PETase com a nova enzima MHETase foi suficiente para dobrar a degradação do PET. Mas quando os cientistas os ligaram fisicamente “como dois Pac-men unidos por um pedaço de barbante”, eles funcionaram ainda melhor.

Usando o poderoso síncrotron Diamond Light Source no Reino Unido como uma fonte de intensos feixes de raios-X, McGeehan e seus colegas revelaram a estrutura da nova enzima por meio de cristalografia de raios-X, que então lhes permitiu anexar meticulosamente os dois, criando uma estrutura inseparável duo.

“Foi preciso muito trabalho dos dois lados do Atlântico, mas valeu a pena o esforço”, diz McGeehan.

“Ficamos muito satisfeitos em ver que nossa nova enzima quimérica é até três vezes mais rápida do que as enzimas separadas que evoluíram naturalmente, abrindo novos caminhos para melhorias futuras.”

Na natureza, não é incomum que enzimas secretadas por micróbios trabalhem lado a lado, quebrando a celulose, a quitina e outras estruturas celulares resistentes.

“Dado que os sistemas microbianos naturais evoluíram ao longo de milhões de anos para degradar de forma otimizada os polímeros recalcitrantes, talvez não seja surpreendente, em retrospecto, que uma bactéria do solo desenvolveu a capacidade de utilizar [..] um sistema de duas enzimas,” escrevem os autores.

Ao tentar projetar maneiras mais rápidas e eficientes de decompor o lixo plástico, os pesquisadores acreditam que um coquetel de enzimas demolidoras de plástico é provavelmente melhor do que simplesmente um indivíduo – e esse destruidor super mutante certamente poderia ser uma peça nesse quebra-cabeça.

“No futuro, o projeto de sistemas multienzimáticos para despolimerização de resíduos de polímeros mistos é uma área promissora e frutífera para investigação contínua”, conclui a equipe em seu artigo.

Como o México está gerando energia limpa a partir de cactos

BBC Future


A vantagem do nopal para a produção de biocombustível é que ele é cultivado para outros fins, contribuindo para o uso eficiente da terra e dos recursos
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A vantagem do nopal para a produção de biocombustível é que ele é cultivado para outros fins, contribuindo para o uso eficiente da terra e dos recursos

A paisagem poderia ser a de um cartão postal do deserto mexicano. Com o sol a pino, um campo verde de cactos cobre os arredores empoeirados de Camémbaro, comunidade agrícola no Estado de Michoacan.

O nopal, como esse tipo de cacto com folhas ovais é conhecido em todo o país, não cresce apenas nessas terras. Ele pode ser encontrado em toda a região mesoamericana e é tão emblemático que está estampado na bandeira nacional do México.

É utilizado tradicionalmente na culinária local, sendo consumido como um alimento saudável, em saladas e shakes, e na composição de tortilhas e nachos.

Os resíduos não comestíveis desse cacto são normalmente descartados, mas, nesta cidade, os moradores viram o potencial de transformá-los em uma nova fonte de combustível.

O nopal é usado em vários pratos tradicionais da culinária mexicana, mas a parte não comestível da planta costuma ser descartada
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O nopal é usado em vários pratos tradicionais da culinária mexicana, mas a parte não comestível da planta costuma ser descartada

Em 2009, o empresário local Rogelio Sosa Lopez, já bem-sucedido no ramo de fabricação de tortilhas a partir de farinha de milho, fez uma parceria com Miguel Angel Ake para fundar a Nopalimex, empresa que cultiva cactos como uma alternativa mais barata ao milho.

Eles descobriram que as plantações de nopal produzem entre 300 e 400 toneladas de biomassa por hectare em terras menos férteis e até 800 a 1.000 toneladas em solos mais ricos em nutrientes. O nopal também requer uma quantidade mínima de água, e seus resíduos, se processados ​​adequadamente, podem ser transformados em biocombustível.

“Estamos semeando nopal por três razões. A primeira é social: ele gera empregos e evita a emigração. Em segundo lugar, do ponto de vista econômico, reduz o custo do processamento industrial de produtos à base de nopal. Por último e mais importante, há a razão ambiental”, explica Ake.

A expectativa é que o biocombustível de nopal possa ser uma alternativa viável aos combustíveis fósseis na região.

Como funciona a produção

Ake começou a explorar biocombustíveis há mais de 40 anos, mas a experimentação com cactos teve início em 2007. Agora, sua empresa está produzindo combustível suficiente para abastecer os edifícios que processam todas as partes do nopal de maneira sustentável.

Mas ele planeja ir além. Já assinou um termo de compromisso com o governo local de Zitacuaro, no Estado de Michoacán, para fornecer combustível à base de cacto para veículos oficiais, de carros de polícia a ambulâncias.

“Com a quantidade de nopal que temos no México e uma produtividade de mais de 100 toneladas de gás por acre, acreditamos que (o nopal) pode acabar substituindo o uso tradicional de gás e combustível de fontes não renováveis”, diz ele.

O processo é relativamente simples. Primeiro, os cactos são cortados e processados ​​para extração da farinha, que é usada na fabricação de tortilhas.

Os resíduos não comestíveis da planta que restam são então misturados com esterco de vaca em um bioprocessador, tanque de fermentação que aquece a polpa do cacto desperdiçada. Em seguida, o combustível é destilado a partir do líquido restante e coletado por meio de tubos em um tanque.

É provável que o uso de resíduos agrícolas desempenhe um papel cada vez maior na produção de combustíveis, diz a pesquisadora Teresa Domenech Aparisi, professora de ecologia industrial e economia circular do Instituto de Recursos Sustentáveis ​​da University College London (UCL), no Reino Unido.

"Temos que ampliar os biocombustíveis sem aumentar o consumo de água", afirma. "O futuro deve se voltar especialmente para os resíduos agrícolas e industriais."

Esse método de produção de combustível a partir de cactos é um exemplo muito bom, acrescenta Domenech Aparisi, porque qualquer tipo de produto agrícola geralmente gera uma quantidade enorme de resíduos após a colheita.

Um dos atrativos desse processo é que ele não cai em uma grande armadilha da produção convencional de biocombustíveis.

As culturas de milho, cana-de-açúcar, soja e dendê, que representam 97% dos biocombustíveis em todo o mundo, são frequentemente cultivadas em grandes monoculturas.

Isso quer dizer que ocupam terras que poderiam ser usadas para produzir alimentos, destroem habitats e levam a ecossistemas menos equilibrados, além de fazerem uma forte pressão sobre os recursos hídricos e serem associadas à seca.

O diferencial do sistema de cactos de Ake é que ele utiliza resíduos de outra indústria, em vez de cultivar uma lavoura especificamente para produzir combustível.

"Você tem o produto, mas também o subproduto, que pode ser uma fonte de energia", explica Domenech Aparisi.

O uso do nopal na culinária é justamente o que faz dele um biocombustível particularmente sustentável
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O uso do nopal na culinária é justamente o que faz dele um biocombustível particularmente sustentável

Economia circular

A mudança em direção ao biocombustível de cacto é parte de um esforço para acabar com a ideia de "resíduo" como algo inútil que você deve descartar.

“Atualmente, temos um sistema muito linear. Você extrai produtos da natureza, os transforma e, em um período muito curto de tempo, às vezes um pouco mais, eles acabam virando resíduos”, diz Domenech Aparisi.

"Em uma economia circular, você tenta manter os recursos e produtos no sistema pelo maior tempo possível, e depois você tem os resíduos para regenerar esses recursos e recuperá-los para o sistema.”

Outro bom exemplo de como os biocombustíveis poderiam funcionar em uma economia circular é o café. Quase 500 mil toneladas de resíduos de café são jogados fora todos os anos só no Reino Unido.

Na Escócia, dois empresários estão usando borra de café para extrair óleo como uma alternativa sustentável ao dendê. Em outras partes do Reino Unido, a empresa de tecnologia limpa Bio-bean coleta resíduos de café e os transforma em combustível.

Desde 2017, pesquisadores da Universidade de Coventry, também no Reino Unido, estudam como iniciativas inovadoras relacionadas ao café podem nos ajudar a avançar em direção a sociedades sustentáveis.

Em um dos projetos, eles descobriram que, do ponto de vista da economia circular, os grãos de café torrados podem ser reutilizados como base de alguns adubos e são uma boa base para o cultivo de cogumelos. No entanto, também constataram que ainda há pouco gerenciamento de resíduos em todo o setor.

Para as indústrias de biocombustíveis se tornarem realmente circulares, ainda há alguns obstáculos significativos.

“Um dos problemas é a infraestrutura para coletar e depois extrair energia da biomassa", diz Domenech Aparisi.

E isso se refere tanto ao gerenciamento de resíduos a nível doméstico, quanto industrial.

"A expansão não acontece porque em muitos lugares as pessoas não se preocupam com o desperdício. Então, como você realmente define a estrutura e a gestão para que isso aconteça?”

Ouro verde

No México, Juan Francisco Perez pesquisa há mais de uma década como produzir biocombustível a partir de diferentes plantas. Ele agora lidera projetos no Cinvestav, centro nacional de pesquisa, analisando diferentes tipos de resíduos de alimentos para produção de energia.

“Quando se trata de cacto nopal, eles são muito úteis para produzir combustível, porque são ricos em açúcar, o que é realmente importante para produzir biocombustível e gás biometano. Também é muito conveniente porque no México há muitas terras áridas e semidesérticas, por isso é impossível ter outros tipos de lavouras”, diz Perez.

"O nopal precisa de muito pouca água", acrescenta.

As múltiplas propriedades do nopal levaram Ake a descrever esse tipo de cacto como "ouro verde". Até agora, a Nopalimex funciona com a energia que produz a partir do biogás.

"Já estamos produzindo entre sete e oito toneladas de tortilhas com nopal e energia a partir de nopal todos os dias, mas pesquisadores e agricultores ainda estão desenvolvendo usos diferentes para este cacto, por exemplo, como uma alternativa às embalagens, tecidos e resinas de plástico", conta Ake.

E não para por aí. Segundo ele, cientistas estão estudando usar resíduos de abacate no Estado de Michoacan e Sargasso como possível fonte de biocombustível.

Embora todos compartilhem o otimismo de que os biocombustíveis podem desempenhar um papel importante na substituição dos combustíveis fósseis, Domenech Aparisi acredita que é preciso alinhar as expectativas com a realidade.

"Eles não vão substituí-los completamente. Teremos tecnologias renováveis, ​​e as biomassas terão uma porcentagem dentro dessas tecnologias na substituição dos combustíveis fósseis", diz ela.

“Já estamos em transição para economias de baixo carbono, mas os biocombustíveis não serão a única solução. Terão que ser combinados com outras formas de geração de energia a partir de recursos renováveis.”

Isso é particularmente importante porque os biocombustíveis à base de resíduos estão entre os tipos ​​de combustível mais sustentáveis que existem, acrescenta Danay Carrillo, pesquisador do Instituto Tecnológico de Monterrey, no México.

“Para que os biocombustíveis sejam sustentáveis, é muito importante que pelo menos seu primeiro uso seja para consumo humano, em vez de cultivar matéria orgânica apenas para produção de combustível, o que apenas aumentaria o consumo de água e o uso da terra”, explica.

Portanto, não devemos nos surpreender ao encontrar cada vez mais resíduos sendo reaproveitados como fonte de combustível, sejam de cactos ou de grãos de café. Na verdade, se pretendemos fazer dos biocombustíveis uma parte essencial da matriz energética, precisamos deles.

Com o auxílio de estratégias como essas, Carillo estima que, em uma década, os biocombustíveis de resíduos orgânicos poderão substituir as energias não renováveis ​​no México. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Fraturas em glaciares da Antártida prenunciam o pior

 Por: Tecmundo




Os cientistas a chamam de “geleira do Juízo Final” e parece que o glaciar Twaites resolveu fazer valer o apelido: imagens de satélites da agência espacial americana NASA e da europeia ESA revelaram que a estrutura das geleiras da baía do Mar de Amundsen estão se deteriorando mais rapidamente do que se supunha.

Esse é o prenúncio da desintegração das geleiras Pine Island e sua vizinha Thwaites, que resultará em um aumento do nível do mar em mais de 3 metros. O alarme soou em 2 estudos publicados no jornal Cryosphere e no Proceedings of the National Academy of Sciences.

As geleiras Pine Island e Thwaites são, hoje, responsáveis por 5% do aumento global do nível do mar. Entre as duas, a segunda é a que mais danos apresenta. 

Colapso generalizado

“Ela é frequentemente citada como o ponto fraco do manto de gelo da Antártica Ocidental. Se essas geleiras se desestabilizassem, muitas áreas vizinhas também cairiam, causando um colapso generalizado e aumentando drasticamente o nível do oceano”, disse o glaciologista e paleoclimatologista Brent Goehring, da Universidade de Tulane.

A Antártica concentra 90% da água doce do mundo – 80% na parte oriental do continente. Seu manto de gelo de 1 quilômetro de espessura está assentado sobre rocha, rastejando lentamente em direção ao mar há milhões de anos. Porém, a parte ocidental conta outra história: ali, praticamente todo o leito rochoso está abaixo do nível do mar. 

. BBC/NASA/National Snow & Ice data Center/Reprodução 

Juntas, a Pine Island e a Thwaites cobrem uma área do tamanho da Noruega e estão sendo corroídas em sua base por correntes oceânicas quentes. O reflexo dessa atividade insidiosa surgiu em imagens de satélite: seções de Thwaites e da Pine Island estão se separando mais rapidamente do que se pensava.

. BBC/International Thwaites Glacier Collaboration 

Efeito em cascata

"Encontramos danos estruturais como grandes fendas e fraturas abertas, indicando que as plataformas de gelo estão se desfazendo. Elas são como um carro lento no trânsito: forçam qualquer coisa atrás delas a diminuir de velocidade. Se elas desmoronarem no oceano, puxarão tudo o que há atrás delas", explicou o geocientista Stef Lhermitte, da Universidade de Tecnologia Delft, principal autor de um dos estudos publicados.

As fendas no manto do gelo não estavam lá em 1997, nas primeiras imagens de satélite da região. Em 2016, já havia algumas, mas não nessa magnitude, mostrando que a deterioração se acelerou nas últimas 2 décadas e piorou significativamente nos últimos anos.

Ao modelarem o impacto potencial das bases danificadas das geleiras, Lhermitte e colegas chegaram a um resultado sombrio.

Deterioração alimenta deterioração

"Essa fratura parece ter dado início a um processo de retroalimentação. À medida que as geleiras se rompem, o dano aumenta, se espalha e causa ainda mais deterioração, acelerando a desintegração das plataformas", explicou o geofísico e meteorologista Thomas Nagler, coautor de um dos estudos.

Os pesquisadores conseguiram determinar que a temperatura da água abaixo da Thwaites é de 2 °C, ou seja, acima do ponto de congelamento. 

A água quente já abriu uma cavidade de 40 quilômetros quadrados e 300 metros de altura na base da geleira Thwaites.A água quente já abriu uma cavidade de 40 quilômetros quadrados e 300 metros de altura na base da geleira Thwaites.Fonte:  NASA/OIB/Jeremy Harbeck 

"Sabemos que 24% do gelo glacial na Antártica Ocidental está se tornando rapidamente cada vez mais fino e instável. Os resultados desses novos trabalhos mostram claramente que as geleiras Pine Island e Thwaites estão mais vulneráveis do que nunca”, disse o geofísico e líder da missão CryoSat (programa da ESA para monitorar o gelo polar através de satélites), Mark Drinkwater.