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sábado, 14 de novembro de 2020

Célula termofotovoltaica tira mais eletricidade do calor

Redação do Site Inovação Tecnológica


Célula termofotovoltaica tira mais eletricidade do calor
A equipe chegou perto da perfeição no ajuste de sua célula termovoltaica.
[Imagem: Dejiu Fan/Universidade de Michigan]

Células de calor

Um tipo emergente de célula solar - elas de fato capturam o calor da radiação solar - que refletem 99% da energia que não pode ser convertida em eletricidade prometem ajudar a baixar o preço do armazenamento de energia renovável, bem como viabilizar a coleta de calor residual de canos de escapamento de automóveis e chaminés.

A tecnologia de armazenamento de energia renovável armazena a eletricidade gerada pela energia eólica e energia solar em um banco de calor - um tanque de silício fundido, por exemplo - ou quimicamente, nas chamadas "baterias de fluxo", de onde ela pode ser recuperada à noite ou quando o vento não estiver soprando.

Os bancos de calor podem ser mais baratos do que as baterias de fluxo, mas eles dependem de um tipo especial de painel fotovoltaico que, em vez de capturar a luz do Sol e gerar eletricidade, transformam o calor armazenado em eletricidade.

Em comparação com os painéis solares comuns, esses painéis fotovoltaicos térmicos precisam ser capazes de capturar fótons de menor energia - pacotes de luz ou calor - porque o depósito de calor emite radiação numa frequência bem menor do que o Sol.

Para maximizar a eficiência, os engenheiros têm procurado refletir os fótons que têm energia muito baixa de volta para o banco de calor. Dessa forma, a energia é reabsorvida e tem outra chance de se mesclar e ser reemitida na forma de um fóton de alta energia e produtor de eletricidade.

Célula termofotovoltaica tira mais eletricidade do calor
Com a "ponte aérea", a perda ("Loss") de fótons foi significativamente reduzida.
[Imagem: Dejiu Fan et al. - 10.1038/s41586-020-2717-7]

Células termofotovoltaicas

As células termofotovoltaicas, feitas com uma película de ouro que funciona como espelho, refletem 95% da "luz" - no espectro infravermelho - que não consegue absorver. Parece muito bom, mas se 5% da luz for perdida a cada salto, aquela luz tem em média 20 chances de ser reemitida em um fóton com energia suficiente para ser transformada em eletricidade.

Aumentar o número de oportunidades abre a possibilidade de uso de materiais mais baratos do que o ouro, que são mais seletivos sobre quais energias de fótons eles aceitarão. Isso tem benefícios adicionais: fótons de energia mais alta produzem elétrons de energia mais alta, o que significa tensões mais altas e menos energia perdida durante a distribuição da eletricidade.

Tem muita gente trabalhando nisso, mas foi Dejiu Fan e seus colegas da Universidade de Michigan, nos EUA, que conseguiram um avanço significativo.

Para melhorar a refletividade, Fan adicionou uma camada de ar entre o semicondutor - o material que converte os fótons em eletricidade - e o suporte de ouro. O ouro é um refletor melhor se a luz o atingir após viajar pelo ar, em vez de vir direto do semicondutor. E, para minimizar o grau em que as ondas de luz se cancelam, a espessura da camada de ar deve ser semelhante ao comprimento de onda dos fótons.

Poucos acreditavam ser possível ajustar com precisão essa "ponte de ar", com um vão tão longo e sem nenhum suporte mecânico no meio, mas a equipe conseguiu usar um filme semicondutor de apenas 1,5 micrômetro de espessura, que fica separado por 70 micrômetros de ar da película de ouro, que tem 8 micrômetros de largura.

A célula termofotovoltaica alcançou uma eficiência de conversão calor-eletricidade de 30%.

E a equipe afirma que já tem algumas cartas na manga para aumentar a eficiência ainda mais, adicionando "noves" extras à porcentagem de fótons refletidos - por exemplo, aumentar a refletividade para 99,9% (contra os atuais 95%) daria ao calor 1.000 chances de se transformar em eletricidade.

Bibliografia:

Artigo: Near-perfect photon utilization in an air-bridge thermophotovoltaic cell
Autores: Dejiu Fan, Tobias Burger, Sean McSherry, Byungjun Lee, Andrej Lenert, Stephen R. Forrest
Revista: Nature

DOI: 10.1038/s41586-020-2717-7 

Zepelim solar poderia fazer transporte mais sustentável de cargas

Pelo site CicloVivo


Empresa britânica está construindo protótipo de um dirigível que usaria motores movidos a energia solar

zepelin solar Varialift Airships
Foto: Varialift Airships

As imagens de Zepelins remetem ao passado distante e, muito provavelmente, as novas gerações nem saibam o que eram os dirigíveis que cruzavam os céus. Mas, os ingleses da Varialift Airships apostam em um zepelin movido a energia solar como alternativa para o transporte mais sustentável de cargas.

Foto: Varialift Airships

A empresa está desenvolvendo este projeto e, segundo o diretor geral da companhia, Alan Handley, a aeronave poderá fazer viagens entre a Inglaterra e os Estados Unidos consumindo apenas 8% do combustível usado por uma avião comum.

O Zepelin terá a propulsão de um par de motores solares e dois motores convencionais e pode ser usado para o transporte internacional de cargas com baixas emissões.

A ausência de uma bateria limitaria as viagens ao período diurno e a velocidade seria aproximadamente a metade da que atinge um Boeing 747. Mas, para o transporte de mercadorias, o dirigível pode ser uma boa opção. Segundo a empresa, a aeronave será capaz de transportar até 250 toneladas, mas já existe um projeto para desenvolver modelos maiores com capacidade de carga de 3 mil toneladas.

Foto: Varialift Airships

Ainda segundo os fabricantes, é possível realizar o transporte de cargas mais volumosas na parte de baixo, usando cabos. OU seja, haveria um limite de peso, mas não um limite de tamanho para os itens transportados.  

O fato das decolagens e pousos de dirigíveis serem mais similares aos de um balão do que de um avião, também pode ser um atrativo, já que dispensa pistas de aeroportos para deixar e voltar ao solo e chegaria a locais menos acessíveis.

Foto: Varialift Airships

A Varialift ainda não começou a construir o modelo definitivo, mas já começou a construir o primeiro protótipo de 140 metros de comprimento, 26 metros de largura e 26 metros de altura – a previsão é que o protótipo do zepelim solar seja finalizado em 9 meses.

Plataforma mapeia soluções para cidades sustentáveis

Por Agência Brasil

Além de propostas de políticas públicas, o Observatório de Inovações reúne 358 estudos de casos bem-sucedidos e replicáveis.

soluções para cidades
Foto: iStock

Na última quinta-feira (5), foi lançado o Observatório de Inovações para Cidades Sustentáveis. O projeto visa reunir informações, propostas e exemplos concretos de iniciativas e políticas públicas em âmbito municipal que contribuem para promover a melhoria da qualidade de vida das pessoas e o fortalecimento da situação do meio ambiente.

O projeto é uma parceria do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), do Programa para o Meio Ambiente da Organização das Nações Unidas (PNUMA) e o Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE).

Agricultura urbana / Foto: iStock

A plataforma traz soluções e estudos de casos bem-sucedidos. Dentre as soluções estão 222 propostas de políticas públicas que podem ser desenvolvidas por gestores municipais. Dentre os estudos de casos, foram sistematizadas 358 experiências já realizadas e analisadas pela equipe do projeto.

As iniciativas foram reunidas a partir de um conjunto de temas relacionados à sustentabilidade nas cidades, como mobilidade, água, energia, ambiente construído e “soluções baseadas em natureza”. Cada item pode ser visto juntamente a 50 indicadores e a tipologias em um ambiente geolocalizado, em que o usuário visualiza o município ou conjunto de cidades.

“A plataforma tem como objetivo criar ambiente moderno, interativo, acolhendo sugestões de desenvolvimento tecnológico, de questões que promovam a inovação nos grandes ambientes urbanos à luz dos grandes desafios que cidades do mundo enfrentam para gerar um ambiente mais agradável, sustentável, repercutindo na qualidade de vida dos cidadãos”, disse o presidente do CGEE, Márcio Miranda, no evento virtual de lançamento.

 Foto: Aiokr chen | Unsplash

Segundo o gestor de portfólio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Asher Lessels, o observatório fornece um grande banco de dados de soluções para ajudar a enfrentar desafios urbanos.

“São soluções que vão promover o desenvolvimento sustentável, que resultem em cidades sustentáveis, com benefícios para os habitantes das cidades. Acreditamos que o observatório tem papel forte no apoio às cidades para gerar uma recuperação verde melhor da situação da pandemia”, destacou Lessels.

Drones podem plantar árvores e reflorestar o planeta

 Pelo site CicloVivo

Startup canadense aposta em drones especializados para o plantio de 1 bilhão de árvores até 2028

drones plantar árvores Flash Forest
Foto: Flash Forest

Profissionais humanos podem plantar cerca de 11 mil árvores por semana. Um número e tanto, não é mesmo? Mas, esta marca pode ser ultrapassada com a ajuda da tecnologia: a startup canadense Flash Forest planeja usar dois pilotos e um drone para plantar 100 mil árvores por dia.

Esta ainda é uma meta distante, mas para começar, a ideia é plantar 40 mil árvores com a ajuda de drones em uma área devastada por queimadas no norte de Toronto. A partir daí a startup vai ampliar sua atuação para outras regiões e tem como meta plantar 1 bilhão de árvores até 2028.

Foto: Flash Forest

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, a humanidade precisa plantar 1 bilhão de hectares de árvores para que possamos ter a esperança de limitar o aquecimento global a 1,5°C.  Isso representa uma área reflorestada do tamanho dos Estados Unidos. E a Flash Forest é uma entre muitas startups que apostam nos drones como alternativas para este plantio.

“Acredito que os drones são absolutamente necessários papara alcançarmos as metas que temos de sequestro de carbono”, Angelique Ahlstrom, gerente de estratégias da Flash Forest. “Os drones têm potencial para plantar 10 vezes mais rápido que os humanos”.

Foto: Flash Forest

Mapeamento e plantio

Ao iniciar um novo projeto de reflorestamento, a Flash Forest mapeia a área e identifica quais são os locais mais indicados para o plantio, de acordo com o tipo de solo e vegetação já existente.  Este trabalho também é feito com a ajuda de drones, os mapeadores.

Na etapa seguinte, os “drones plantadores”, entram em ação, depositando com precisão cápsulas de sementes nos locais indicados. Estes drones tem inclusive um dispositivo pneumático de disparo de sementes que pode ser usado em terrenos mais difíceis, como mangues ou morros ingrímes.

“PODEMOS PLANTAR EM ÁREAS ONDE A MÃO DE OBRA HUMANA NÃO TERIA SUCESSO.”

Angelique Ahlstrom

A startup, começou a atuar no início de 2019 e já alcançou a marca de 20 mil árvores plantadas por dia. A Flash Forest usa bancos de sementes locais para seus plantios e avalia as mudanças que podem acontecer nas regiões onde atua para a escolha das espécies.

“Pesquisamos como serão as condições nos locais de reflorestamento, tentando antecipar algumas mudanças que o aumento da temperatura pode trazer em 5 ou 8 anos, por exemplo. Neste período as árvores que plantamos hoje já terão crescido e estas alterações podem afetar o seu desenvolvimento”, conta Ahlstrom.

Além de depositar as sementes, os drones podem ajudar a fiscalizar o desenvolvimento das mudas. Alguns projetos incluem monitorameto periódico com análises 2 meses depois do plantio, 1 ano, 3 e 5 anos após o plantio.

domingo, 8 de novembro de 2020

Tinta branca resfria prédios mesmo sob sol direto

Redação do Site Inovação Tecnológica


Tinta branca resfria prédios mesmo sob sol direto
O segredo da tinta que reflete o calor para o espaço está na composição e na dimensão das partículas que a compõem.
[Imagem: Xiangyu Li et al. - 10.1016/j.xcrp.2020.100221]

Refrigeração passiva

Enquanto trabalhavam no desenvolvimento da "eletrônica do calor", ou fonônica, pesquisadores se deram conta de que seus materiais poderiam ser úteis no promissor campo da refrigeração radiativa, aquele tipo de refrigeração passiva que manda o calor para o espaço sem gastar energia.

Eles então formularam uma tinta branca que resfria a superfície onde está aplicada abaixo da temperatura ambiente - e ela faz isso mesmo sob luz solar direta.

A tinta reflete passivamente 95,5% da luz solar que atinge sua superfície de volta ao espaço sideral - ela faz isso porque reflete um comprimento de onda para o qual a atmosfera terrestre é transparente.

Embora os cientistas venham tentando desenvolver tintas de resfriamento radiativo desde a década de 1970, as que foram desenvolvidas até hoje não se mostraram capazes de refletir luz solar suficiente para funcionar como alternativas aos condicionadores de ar tradicionais.

As chamadas "tintas reflexivas de calor" atualmente no mercado podem refletir até 80% a 90% da irradiação solar, mas não conseguem atingir temperaturas abaixo da temperatura ambiente.

"Tem sido uma tarefa persistente desenvolver uma solução de resfriamento radiativo abaixo da temperatura ambiente que ofereça uma forma conveniente de tinta de camada única, de matriz de partículas e de alta confiabilidade," disse o professor Xiulin Ruan, da Universidade Purdue, nos EUA. "Isso é fundamental para a aplicação ampla do resfriamento radiativo e para aliviar o efeito do aquecimento global."

Tinta que resfria

Para desenvolver uma tinta de resfriamento radiativo promissora comercialmente, a equipe usou carbonato de cálcio como matriz de carga para a tinta, um composto abundante e mais barato do que as tradicionais partículas de dióxido de titânio, uma vez que as cargas - material de base no qual são acrescentados os pigmentos - têm grandes lacunas de banda (diferenças de energia entre a banda de elétrons de valência e a parte inferior da banda de elétrons de condução) que ajudam a minimizar a quantidade de luz ultravioleta que a tinta absorve.

A equipe também alcançou uma alta concentração de partículas - 60% -, o que aumenta a dispersão da luz solar, bem como uma ampla distribuição de tamanhos de partículas - em vez de um único tamanho de partícula - para obter um espalhamento de banda larga eficiente.

Nos testes, a amostra de tinta permaneceu 10 ºC abaixo da temperatura ambiente à noite e 1,7 ºC abaixo da temperatura ambiente com o Sol a pino - a potência de resfriamento atingiu 37 W/m2 sob luz solar direta.

A equipe espera que a tecnologia possa beneficiar uma ampla gama de indústrias, incluindo edifícios residenciais e comerciais, centrais de dados, armazéns, armazenamento de alimentos, automóveis e equipamentos elétricos externos - como a tinta não tem componentes metálicos, as empresas de telecomunicações podem usá-la para evitar o superaquecimento de equipamentos, um elemento importante na tecnologia 5G.

Antes disso, porém, há trabalho a ser feito: A equipe pretende agora realizar estudos de confiabilidade de longo prazo, para testar a resistência da tinta à exposição à luz ultravioleta, poeira, água e detergentes, além de sua capacidade de adesão, a fim de garantir sua viabilidade como um produto comercial.

Bibliografia:

Artigo: Full Daytime Sub-ambient Radiative Cooling in Commercial-like Paints with High Figure of Merit
Autores: Xiangyu Li, Joseph Peoples, Zhifeng Huang, Zixuan Zhao, Jun Qiu, Xiulin Ruan
Revista: Cell Reports Physical Science
Vol.: 1, Issue 10, 100221
DOI: 10.1016/j.xcrp.2020.100221

Célula a combustível usa germes do solo para gerar energia

Redação do Site Inovação Tecnológica


Célula a combustível usa germes do solo para gerar energia no Nordeste
Protótipo de célula a combustível que gera energia usando bactérias presentes no solo.
[Imagem: Universidade Bath]

Energia e água potável

Células a combustível que criam energia usando reações químicas feitas por microrganismos do solo passaram com sucesso em testes de campo realizados no Nordeste do Brasil com o auxílio de pesquisadores das universidades federais do Rio Grande Norte e do Ceará.

Os protótipos dos biorreatores podem ser usados para produzir energia ou para filtrar água suficiente para as necessidades diárias de uma pessoa, mas futuras versões poderão ser feitas em maior escala.

"Este projeto comprova que as células a combustível microbianas têm potencial verdadeiro como fonte de energia sustentável e de baixo consumo de energia," disse a líder do projeto, professora Mirella Di Lorenzo, da Universidade de Bath, no Reino Unido, onde as células foram construídas.

Os testes de campo mostraram que cada célula a combustível microbiana consegue produzir até três litros de água potável por dia, o que é suficiente para o consumo diário de uma pessoa.

Os testes foram realizados em Icapuí, uma vila de pescadores localizada em um local semi-árido onde a principal fonte de água potável é a água da chuva e não há acesso fácil à rede elétrica.

Célula a combustível usa germes do solo para gerar energia no Nordeste

[Imagem: Jakub Dziegielowski et al. - 10.1016/j.apenergy.2020.115680]

Células a combustível microbianas

As células solares microbianas testada geram energia a partir da atividade metabólica de microrganismos específicos (eletrígenos) naturalmente presentes no solo, que são capazes de transferir elétrons para fora de suas células.

O sistema consiste em dois eletrodos à base de carbono, posicionados a uma distância fixa (4cm) e conectados a um circuito externo. Um eletrodo, o anodo, é enterrado no solo, enquanto o outro, o catodo, é exposto ao ar na superfície do solo.

Os eletrígenos migram para a superfície do anodo e, à medida que "consomem" os compostos orgânicos presentes no solo, eles geram elétrons. Esses elétrons são transferidos para o anodo e viajam até o catodo através do circuito externo, gerando um fluxo de eletricidade.

Célula a combustível usa germes do solo para gerar energia no Nordeste
A montagem e testes dos protótipos das células a combustível foram realizados por estudantes da EEF Professora Mizinha, de Icapuí.
[Imagem: Universidade Bath]

Geração de água potável

Montando uma pilha com várias células e conectando-a a uma bateria, é possível coletar e armazenar a energia e usá-la para alimentar um reator eletroquímico para tratamento de água.

A equipe afirma que seus protótipos custaram "apenas algumas libras", um valor que pode ser reduzido ainda mais com a produção em massa e com o uso de recursos locais para a fabricação do eletrodo.

"Usar a tecnologia de célula de combustível microbiana do solo para atender as necessidades diárias de água de uma família já é possível em condições de laboratório, mas fazer o mesmo ao ar livre e com um sistema que requer manutenção mínima é muito mais complicado, e isso já provou ser uma barreira para as células de combustível microbianas serem consideradas eficazes. Este projeto mostra que essas células têm potencial verdadeiro como fonte de energia sustentável e de baixo consumo de energia," disse Mirella.

Bibliografia:

Artigo: Development of a functional stack of soil microbial fuel cells to power a water treatment reactor: From the lab to field trials in North East Brazil
Autores: Jakub Dziegielowski, Benjamin Metcalfe, Paola Villegas-Guzman, Carlos A. Martínez-Huitle, Adryane Gorayeb, Jannis Wenk, Mirella Di Lorenzo
Revista: Applied Energy
Vol.: 278, 115680
DOI: 10.1016/j.apenergy.2020.115680

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

A cidade dividida que ajuda a explicar por que algumas nações fracassam e outras prosperam

Pela BBC - Brasil


Ilustração mostra uma cidade rica à esquerda e uma cidade pobre à direita
O que explica essa diferença entre os lugares?

Por que alguns países, como a Noruega, são ricos, e outros países, como o Níger, são pobres?

É uma grande questão que muitos fizeram, fazem e continuarão fazendo. E por quê? Porque há várias possíveis respostas para isso.

Para o filósofo e economista alemão Max Weber (1864-1920), um dos mais importantes teóricos do desenvolvimento da sociedade ocidental moderna, foram as diferenças religiosas ou culturais que determinaram os diferentes resultados econômicos.

Outros argumentaram que a falta de recursos naturais ou de técnicas impediu os países pobres de gerarem crescimento econômico autossustentável. Há também quem fale no impacto determinante do colonialismo ou do neocolonialismo.

Mas James Robinson, professor da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, e diretor do Instituto Pearson, argumenta que não é nenhuma dessas coisas.

Ele estudou profundamente a diferença entre países pobres e prósperos.

"A diferença é extraordinária", disse ele em entrevista à BBC. "A renda per capita da Noruega é pelo menos 50 vezes maior que a de um país pobre da África Subsaariana como Serra Leoa ou de um das Américas, como o Haiti. A expectativa de vida em Serra Leoa ao nascer seria de 30 anos e na Noruega, de 80 anos. Portanto, essa é uma diferença extraordinária em termos de vida e bem-estar das pessoas."

Experimentos naturais

Para tentar entender a questão, Robinson estudou um aspecto conhecido como "experimentos naturais".

Essas são situações não planejadas e instrutivas porque mostram o que acontece quando os humanos são distribuídos aleatoriamente e expostos a diferentes condições.

imagem com dois aquários, um maior com um peixe maior e sozinho, e outro menor, com vários peixes menores
É por causa da geografia? Dos recursos naturais? Ou passa por questões culturais?

Pense, por exemplo, na fronteira que separa a Coreia do Norte da Coreia do Sul, estabelecida desde 1953, ou em Berlim, que foi dividida entre leste e oeste por décadas durante a Guerra Fria.

Nesses casos, a Coreia do Sul tornou-se muito mais rica do que a Coreia do Norte, e Berlim Ocidental tornou-se muito mais rica do que Berlim Oriental.

Experimentos naturais como esses são importantes quando você estuda a questão de por que algumas nações falham e outras prosperam, e Robinson analisou um deles durante anos: Ambos Nogales.

As duas Nogales

Nogales é uma cidade dividida: parte fica no norte de Sonora, no México, e no sul do Arizona, nos EUA.

"Antes que o presidente (Donald) Trump ficasse animado com muros, já havia um em Nogales."

Nogales está em dois países: México e EUA
Nogales está em dois países: México e EUA

Devido à relação tensa que existia entre os dois países durante a década de 1910, as autoridades mexicanas ergueram cercas temporárias na fronteira. Mas, depois da Batalha de Ambos Nogales, que eclodiu em 1918, a primeira cerca permanente na fronteira foi construída entre as duas cidades.

"Portanto, existem duas Nogales, elas são muito semelhantes em muitos aspectos, mas em aspectos altamente relevantes para a vida e as oportunidades das pessoas, são dramaticamente diferentes", aponta Robinson.

Portanto, vamos voltar à pergunta: por quê?

Todos os tipos de possíveis explicações foram dadas para entender essa enorme diferença na riqueza das nações.

Uma delas é...

A cultura?

Os noruegueses, prossegue Robinson em seu argumento, têm em suas raízes a ética de trabalho protestante. Mas outras nações não têm essas bases.

Só que isso não pode explicar o fenômeno Nogales.

Em termos de música, comida, valores familiares, etc., não existem diferenças culturais significativas entre Nogales do Norte e do Sul. Robinson cita então outras evidências para refutar a narrativa cultural.

Nogales, Sonora
As questões culturais não podem explicar a diferença entre as duas Nogales

"Algo que temos estudado muito é o impacto do colonialismo europeu no desenvolvimento comparativo do mundo. Muitas pessoas dizem: 'a razão pela qual a América é tão próspera é porque os ingleses vieram, eles trouxeram essa ética de trabalho protestante anglo-saxônica'. Mas se você olhar para a questão do impacto da cultura britânica de forma mais ampla no mundo colonial, verá que isso não pode ser verdade", argumenta.

Segundo ele, "é verdade que entre as ex-colônias britânicas estão os EUA, Austrália e Nova Zelândia, mas também o Zimbábue e Serra Leoa. Portanto, não foram realmente os britânicos na América do Norte que criaram toda essa prosperidade".

Para Robinson, o colonialismo fornece evidências de que as hipóteses culturais não explicam realmente o desenvolvimento comparativo entre nações.

Portanto, se não for a cultura, o que mais poderia explicar a desigualdade de riqueza?

A geografia?

Talvez alguns países tenham uma localização geográfica vantajosa: um clima melhor, por exemplo, ou ligados a uma rota comercial.

Mas isso também não explica o fenômeno Nogales.

E os recursos naturais?

Existem países ricos em recursos naturais. A Noruega, por exemplo, tem petróleo.

"Sim, mas a Arábia Saudita e Angola também têm petróleo", responde Robinson. "Os recursos naturais são excelentes se você os tiver. Mas o que é realmente importante é o que você faz com eles.

escudo de nogales com as bandeiras dos eua e do méxico
O que explica o fenômeno de Nogales?

"Nem a Coreia do Sul nem o Japão são ricos em recursos naturais. Talvez tenham boas terras. Este é um bem que está distribuído pelo mundo, mas demanda investimentos, tecnologia, irrigação, fertilizantes para ser produtivo."

Segundo o economista, "o problema da África, por exemplo, é que não há revolução verde, variedades melhoradas de sementes, não tem infraestrutura, não tem estradas, não tem investimento".

"Portanto, não acredito que o mundo físico determine a prosperidade da sociedade", conclui.

Portanto, se a cultura, a geografia e os recursos naturais não podem explicar a diferença, o que pode então?

Uma palavra: instituições

De acordo com a pesquisa de Robinson, a resposta é: instituições.

"Refiro-me às regras que os próprios humanos criam e que influenciam os seus incentivos e oportunidades. Os seres humanos respondem a incentivos, mas criamos regras na sociedade que geram diferentes padrões de incentivos e que fazem a diferença."

O que os países ricos têm, segundo o economista, são instituições que funcionam, como parlamentos ou tribunais mais honestos e regras que regem os direitos de propriedade e estimulam a competição empresarial.

"Último retorno antes de entrar no México", diz uma placa da cidade fronteiriça
"Último retorno antes de entrar no México", diz uma placa da cidade fronteiriça

E essas regras tendem a ser mais justas, previsíveis e aplicáveis ​​a todos.

Robinson faz uma distinção entre o que ele chama de instituições extrativistas e inclusivas. As instituições extrativistas são aquelas que beneficiam um pequeno número. As instituições inclusivas beneficiam a população em geral.

Dois bilionários

Para ilustrar esse ponto, vamos voltar ao México e aos EUA. Não às duas Nogales, mas a dois dos cidadãos mais ricos desses países: Carlos Slim e Bill Gates.

Gates fundou a Microsoft. Slim está envolvido em vários setores econômicos, e alguns de seus negócios, como o mercado de telefonia fixa, são quase monopólios.

"São dois empresários brilhantes, grandes empreendedores extremamente enérgicos e ambiciosos, mas o mais importante é como fizeram sua fortuna", enfatiza Robinson.

"Bill Gates ganhou dinheiro com a inovação. Carlos Slim ganhou dinheiro com monopólios.

Carlos Slim e Bill Gates
Carlos Slim e Bill Gates, dois bilionários em lados opostos da fronteira México-EUA

"A inovação de Bill Gates o tornou extremamente rico, mas gerou muito mais riqueza para a sociedade: ele atraiu pessoas e recursos para a indústria de computadores. No caso de Carlos Slim, seus monopólios reduziram a renda nacional muito mais do que sua riqueza pessoal."

Por que eles se comportaram de maneira diferente? "É uma questão do mundo em que vivem, de instituições que canalizam suas energias e talentos em direções muito, muito diferentes."

"Se você quer ficar rico na América Latina, o que você faz é conseguir monopólios e formar vínculos com os políticos. Como se faz nos EUA? Você se torna um empresário, abre um negócio e inova", diz Robinson.

Tudo isso levanta uma questão importante. Como Nogales do Sul (México) então pode vir a se transformar em Nogales do Norte (EUA)? Como as instituições extrativistas podem ser transformadas em instituições inclusivas?

Bem, esse é o assunto da pesquisa em andamento de Robinson, e as respostas ainda estão sendo investigadas.